Ginástica

02:55:00




Olá minha querida,

Eu não sei se ainda te lembras de mim. Nós passámos grande parte da minha vida juntas. Digo da minha porque a tua começou muito antes da minha e vai acabar muito depois da minha. Para ser mais sincera ainda, garanto-te que nunca nada me fez tão bem como tu. Nunca outra coisa me fez apaixonar por ti. Já passaram seis anos desde que nos afastámos. E se bem te lembras, eu insisti e lutei até não puder mais. Contra as adversidades eu consegui mais um ano. Um ano pode parecer pouco mas pelo menos tinha tempo de me despedir. Eu nunca te consegui deixar ir totalmente. A verdade é essa. De vez em quando arrisco-me a não me conseguir deslocar mais sozinha. Mas eu não consigo deixar-te ir. És grande parte de mim. És parte da minha história. Eras o meu refúgio. E arrancaram-te de mim como um penso rápido. Indolor não foi. Ainda hoje sinto a dor. E não são as dores nas articulações, a dor nos joelhos, a dor nas costas que me dói mais. O que me dói mais é a dor de ter tido que desistir. Essa dor não se apaga. Essa dor não se compara. Essa dor parece crescer juntamente com a saudade. Coisa tão nossa. E quando me disseram “Mas arranjas-te o samba. Manténs-te ocupada, é só um desporto”, eu chorei. Confesso. Chorei de raiva e pela insensibilidade das pessoas. Cada pessoa tem a sua paixão, o seu amor. E se não têm, que respeitem quem tenha. Tu nunca serás só um desporto. Tu nunca foste apenas uma ocupação. Espero que te estejam a tratar bem e quem te pratica espero que honre aquilo que está a fazer e o faça por gosto. És demasiado “tudo” para te tratarem como “quase” ou como “nada”. Tu dás liberdade a quem te pratica. E se não fossem as minhas costas sabes que estaria até ao meu fim contigo. Mas não posso ser egoísta. Sempre vi os olhos da minha mãe de orgulho quando me via fazer-te, mas nos últimos anos sempre vi no sorriso dela a preocupação. Ela ia sempre comigo ao médico, tu sabes. Ela ouvia que estava a prejudicar-me cada vez mais. Ela via a minha coluna a desviar-se. Até que caí. Cai e tive tanto medo. Tanto medo de acabar assim. Ela suplicou-me para te deixar. O médico aconselhou-me a deixar-te. Tudo se quisesse continuar a ser eu mesma, independente. Eu não podia ser egoísta. Não podia. Mas eles também tinham de me dar tempo. Tempo para te aproveitar. Tempo para te despedir. Tempo para me mentalizar. Um ano. Um ano foi o que me deram. Aproveitei cada segundo. Desculpa não me ter despedido. Foi a única coisa que não consegui. Sei que te deixei sem um Obrigada. Obrigada por me fazeres voar. Obrigada por me dares responsabilidade. Obrigada por me protegeres. Obrigada por me refugiares. Obrigada por me fortaleceres. Sei que te deixei sem um Adeus. Adeus sonho maior. Adeus rotina. Adeus tu. Desculpa-me por isso, mas ainda hoje não consigo dizê-lo mesmo. Seria largar-te. E se te largar tenho medo de te esquecer. É que mesmo longe, mesmo que te pratique uma vez por ano, eu sinto-te aqui. Viva. Em mim. Fazes-me feliz. E isso basta-me.


1998-2011

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