despi-me

13:09:00

uma pessoa por vezes guarda mais dentro de si do que aquilo que consegue mesmo aguentar. a pessoa é teimosa e orgulhosa. fecha-se em copas. e sofre para dentro. fecha-se e mascara-se de salvadora do mundo. essa pessoa sou eu. o tempo que se aguenta é curto comparado com o que realmente queríamos que fosse. as pessoas próximas passam a ser descriminadas, passam a ser desvalorizadas, quando sei que o que sinto nada tem a ver com eles. sinto-me culpada, desrespeitadora.
ontem resolvi mudar, enxergar o mundo, as atitudes, os balanços e parar de fingir. sim. principalmente parar de fingir que não sinto aquilo que sinto. e desabou. desabou o mundo. desabei eu. desabaram as lágrimas. desabou. despi-me de farsas. despi-me de mentiras. despi-me. despi-me de personagens. carreguei durante tanto tempo a mesma que achei que me tinha tornado nela mas quando parei para pensar... ai quando parei para pensar o coração voltou a funcionar. as bochechas começaram a tremer como dantes. o sorriso vincou-se e não saiu. e os olhos continuaram a admirá-lo como sempre o fizeram. até que o brilho neles deixou de ser contemplado mas sim trocado por pequenas gotinhas que se juntaram. não sei se por solidariedade umas com as outras. não sei se por o amarem tanto quanto eu. não sei se por coincidência apenas. mas juntaram-se e voltaram a desenhar cada poro, cada imperfeição, cada linha e cada contratempo do meu rosto. senti-me aliviada no inicio. parecia que juntamente com elas, ele ia embora também. mas reparei que não. a imagem dele só me passava na frente dos olhos. os detalhes continuam os mesmos. não mudou. os sorrisos continuam os mesmos, desenhados da mesma forma. as rugas na testa aprofundam. e o olhar. pareceu o olhar da primeira vez. mas senti-o mais distante. depois as lágrimas não pararam. os momentos não desapareceram. e a dor voltou. a dor que evitei voltou e não conseguia fazê-la parar. doía tanto. odiei-o como nunca. odiei-o porque para dizer a verdade, achei que era mais fácil assim. menos complicado. menos doloroso. mais fácil julgá-lo pelos seus defeitos do que confessar que sou apaixonada até mesmo por eles. é mais fácil tentar me convencer de que não é a pessoa certa do que ter que enfrentar tudo, até mesmo a ele, para ficar do lado dele. a verdade é que eu sou uma cobarde que tem medo disso tudo. mas ontem despi-me de rancores. despi-me de amores. despi-me. e fiquei com medo. com medo do desequilíbrio que ele me traz. com medo do que me faz sentir. com medo do frio na barriga que quando voltaste ressuscitou aqui  dentro. ressuscitou ou apenas me mostrou que ainda não tinha desaparecido como me convenci que sim. despi-me de esconderijos. despi-me de coberturas. despi-me. despi-me e fiquei com medo do desafio que tenho pela frente se for ele que continue a querer do meu lado. enquanto as lágrimas corriam e eu não as conseguia parar eu odiava-o. superdimensionava os deslizes dele e não encarava mais a admiração que tinha por ele. afastava-me porque não tinha forças suficientes para o ter por perto. e mais uma vez camuflei-me e voltei a dar costas a quem queria dar muito mais que isso. por fraqueza ou pela fortaleza enorme que o meu coração se tornou. sei que não aguentarei vê-lo com outro alguém que teve a coragem que eu não tenho. nesse momento eu vou entregar-me a outro. talvez não por gostar dele tanto assim, mas porque a minha cobardia não me permitiu escrever outro final para essa história. e nesse dia eu vou despir-me. despir-me e odiá-lo ainda mais. despir-me e odiar-me mais ainda por isso. porque é mais fácil odiá-lo do que admitir que o quero tanto. vou alimentar a raiva até que ela supere o amor. espero que seja possível. já vi que a sua ausência não é um fator essencial para o que sinto. infelizmente. mas as chaves em que me fecho expulsam-o da minha vida com vontade de o prender aqui. a vontade do beijo é guardado assim como as lembranças no fundo do peito. digo a todos os mares as inverdades que o meu próprio orgulho inventou. despi-me porque achei que a culpa foi minha. despi-me porque achei que a culpa é minha. despi-me e estou melhor agora. nós nunca demos certo. ele nunca serviu para mim. eu odeio-o. eu grito para dentro para ver se o meu próprio coração me escuta. pode ser que de tanto repetir ele acredite um dia. é difícil acertar o diagnóstico entre o amor e o ódio já que há sintomas que se repetem. e nunca se sabe se se ama por odiar tanto, ou se se odeia por se amar tanto. a verdade é que prefiro odiá-lo do que admitir que o amo. é mais fácil assim. agora mesmo estou morrendo de saudades. pena que nunca vai saber. escolhi viver de orgulho, que me acostume com despedidas. não sei se despir-me foi o melhor, mas sei que continuar vestida sufocava. 


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